As Fronteiras do Coaching

fev 7, 2018 | Artigos

Quais são as fronteiras do Coaching?

Antes de abordar propriamente as fronteiras do Coaching, quero propor um olhar um pouco mais cauteloso para o conceito de fronteira, para seus significados mais comuns e para outras palavras que, apesar de parecerem sinônimos, podem se distanciar deste. Os conceitos invariavelmente remetem a outros conceitos, os quais vão fazendo entre si conexões infinitas.

Limite é uma destas palavras, que não raro é empregada como sinônimo de fronteira, apesar de não o ser. Apesar da relação entre elas, ao empregarmos essa substituição, podemos cair no risco de reduzir o conceito de fronteira.

Vejamos: pela definição Aristotélica, limite é “o último ponto de uma coisa, ou seja, o primeiro ponto além do qual não existe parte alguma da coisa e aquém do qual estão todas as partes dela” e, portanto, para falarmos sobre os limites do Coaching, teríamos que definir o que é o coaching. Haveria que se definir extremidades, descontinuidades, territórios e términos, especialmente se pensarmos quão próxima da referência de fim ou esgotamento essa referência está.

O filósofo Kant diz que “limite sempre pressupõe um espaço que está além de certa superfície determinada e que a inclui em si; a fronteira, porém, não precisa disso”, o que nos leva para uma possibilidade de expansão do significado de fronteira para um espaço móvel, plástico, que se molda em relação ao contexto e se adequa às demandas históricas.

Pensemos, nesse texto, limites como pontos finais que restringem e fronteiras como campos separados de outros por membranas que permitem fluxos e passagens, zonas de vizinhança. A fronteira entre mar e areia na praia exemplifica essa transição irregular, inconstante, orgânica e bailarina, um local indiscernível entre um e outro.

As “profissões de ajuda” estão invariavelmente nas fronteiras e fazem vizinhança com a profissão de coach. Querer ajudar o outro é uma das assertivas mais presentes entre os estudantes de coaching com os quais me relaciono e certamente está entre as grandes motivações para a escolha dessa profissão.

Meu alerta vai no sentido de uma distorção da palavra ajuda. Em nossa cultura, ao pensarmos em ajuda, quase que na maior parte do tempo, pensamos em fazer pelo outro, resolver pelo outro. Quando peço ajuda para trocar uma lâmpada, por exemplo, não raro aquele que ouviu o pedido, imediatamente troca a lâmpada por mim. Decorre dessa atitude, a exigência da gratidão daquele que foi ajudado ao que ajudou, mesmo que a ajuda não tenha sido na mesma direção do pedido.

Não é raro ouvirmos “fiz tudo o que pude por ele e assim mesmo ele não reconheceu…” ou “fulano pede ajuda e depois faz o que quer…”, como se o ato de pedir ajuda correspondesse imediata e diretamente a aceitação de qualquer ato do outro em sua direção.

O que separa o Coaching?

Uma das coisas que separa a profissão de coach das demais profissões de ajuda é certamente seu método, que difere de outros, assim como eles diferem entre si.

O que separa um médico de um fisioterapeuta e este de um educador físico? O objeto de intervenção, apesar de ser o mesmo, é visto sob ângulos distintos. Esses profissionais têm distinções específicas que fazem parte de seu campo de atuação e de seus domínios explicativos, porém nada impede que um médico prescreva atividades físicas aos seus pacientes, o que nos leva de volta às fronteiras.

O que faz um psicólogo, um analista, um professor, um mentor, um conselheiro, um consultor, um filósofo, que pode diferir do que faz um coach? O que fazemos enquanto coaches que não pode ser apropriado por quaisquer dessas profissões?

Podemos perceber que a membrana fronteiriça, nesse caso, mais permite do que impede, mais possibilita que restringe o contato entre as disciplinas e os profissionais atuantes.

Temos delegado aos psicólogos o estudo dos fenômenos psíquicos com foco em intervenções que solucionem seus eventuais problemas e possibilitem mudança de comportamento. Como existem inúmeras linhas de psicologia, existem pressupostos muito diferentes de conduta em cada uma delas e o ponto comum que pode uni-las é a busca de uma vida boa por parte dos clientes.

O orador grego Antífon, contemporâneo do filósofo Sócrates, ensina a liberdade e a facilitação da existência, vê a felicidade como harmonia consigo mesmo, paz, serenidade e tranquilidade da alma, que ignora a perturbação. Antífon prega o evitamento às tensões múltiplas, o pensamento isento de contradições, sem guerras interiores nas quais o psiquismo vê-se fragilizado e o corpo padeceria das consequências. Vejo que tanto terapeutas como coaches fazem fronteira com esse pensamento.

O coach individual, assim como a maior parte dos profissionais de ajuda, faz seu atendimento individualizado em locais privados, fazendo uso da escuta qualificada e do questionamento para que seu cliente atinja seus objetivos. Nesse ponto percebo a proximidade, a vizinhança, a fronteira do coaching com os aspectos clínicos.

Dizem-se clínicas as atitudes metodológicas e o conjunto de procedimentos que partem das observações dos fenômenos, emitem hipóteses e determinam procedimentos subsequentes, ou seja, a clÍnica não se limita à área médica ou psicoterapêutica, mas abrangeria as metodologias na qual o essencial é a comunicação entre as partes envolvidas no processo e fatores subjetivos são privilegiados. É o caso dos processos de coaching.

Outra fronteira possível surge quando observo a origem grega da palavra amigo. Sendo os filósofos os amigos da sabedoria, os que procuram a sabedoria mas não a possuem, amigo indicaria uma intimidade competente e uma condição de possibilidade do próprio pensamento, uma categoria vida, como afirma o filósofo Deleuze.

A amizade, como vista na Antiguidade, é um sistema relacional que permite a escolha, a liberdade eletiva e reflexiva. É uma relação não institucionalizada, um modo de vida que privilegia o “entre”, rica na preocupação com o outro. Segundo o escritor francês Michel Tournier, não pode haver amizade sem reciprocidade, o que implica uma relação, uma partilha de ideias.

Aristóteles dedicou dois capítulos de sua obra “Ética a Nicômaco” à amizade, que considerava indispensável à vida e dizia ser uma espécie de virtude. Dessa forma, a afeição seria um sentimento, enquanto a amizade seria um estado. Amigo é aquele que pratica o bem para benefício do outro. Aqui, a concordância não é sinônimo de amizade. Nessa obra, o filósofo também enfatiza a importância da amizade a si mesmo dizendo que o melhor amigo de alguém é a própria pessoa.

Amizade, amicitia em latim, tem a mesma etimologia de amor. Ambos derivam da raiz am, que no latim popular designa mãe (amma) e ama (mama). É exatamente nesse ponto que quero propor minha contribuição: se o coaching busca se constituir numa ferramenta de articulação e inclusão de diferentes enfoques e disciplinas, é imprescindível que pensemos no amar como constitutivo do humano.

Segundo Humberto Maturana, a vida humana só se faz possível a partir da confiança no amor, entendido como a aceitação do outro como legítimo outro na convivência. As interações sociais humanas, caso inequívoco dos processos de coaching, serão tão mais bem sucedidas quanto mais essa aceitação se fizer presente. Citando novamente Maturana, “nosso problema é que confundimos domínios, porque funcionamos como se todas as relações humanas fossem do mesmo tipo, e não são” e, portanto, é nossa responsabilidade ética definirmos o domínio de nossa interação como coaches.

Poder atuar amorosamente significa, nesse contexto, a compreensão e o respeito pela liberdade e autonomia de nosso cliente, esforçando-nos para que este gere aprendizado, desenvolva suas capacidades, numa relação colaborativa de aceitação mútua, na qual as relações de poder, de comando, de controle, de autoridade ou de dominação ficam excluídas.

A alteridade ganha novo contorno, porque não se trata apenas da distinção da diversidade ou da diferença que constitui um outro. Apesar das dificuldades que abrangem a compreensão que se tem do que denominamos outro, podemos fazer um contorno satisfatório que é capaz de orientar nossa atuação profissional.

Quero afirmar que as fronteiras do coaching são as fronteiras do amor.

Por: Káritas Ribas


Referências Bibliográficas:
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 1992.
MATURANA, H. R.; VERDEN-ZOLLER, G. Amar e Brincar: Fundamentos Esquecidos do Humano. São Paulo: Palas Athena, 2004. 264p.
ONFRAY, M. Contra-história da Filosofia: as sabedorias antigas. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

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