Impacto do isolamento social na facilitação de grupos

maio 10, 2020 | Artigos

Afinal, como é possível facilitar grupos virtuais hoje?

Nesses tempos de isolamento social, grupos e comunidades têm se adaptado à estrutura virtual, organizando-se e ocupando espaços das redes sociais, plataformas de web conferência, LMS (sistemas de aprendizagem), aplicativos de mensagens etc. Neste contexto em que ficar em casa se tornou alternativa de sobrevivência, quem tem essa opção já entendeu que isolamento físico não significa isolamento de ideias e interações.

O que isso muda nas interações dos grupos? Se antes os grupos virtuais eram uma das alternativas de configuração ou de apoio aos grupos, dentro de um leque de opções, agora eles aparecem como a única opção. Essa mudança gerada pela restrição de escolhas altera o modo como os grupos interagem. A interação social é possível por meio de plataformas digitais, mas elas mudam, não somente porque estamos interagindo a distância, mas também porque não nos é possível estar fisicamente juntos. Retirar a possibilidade do corpo presente como elemento no encontro com o outro altera nossa emocionalidade e, com isso, nossas conversas e ações. Por isso, mesmo sendo o virtual um meio conhecido nosso, nós já não somos as mesmas pessoas, logo, nossas interações também não são mais as mesmas.

Quem facilita grupos precisa observar e lidar com o novo modelo mental das interações humanas. Diferente do que se poderia imaginar: não é só o facilitador que atuava presencialmente que deverá se adaptar, mesmo quem já estava familiarizado com o mundo virtual e com facilitações de reuniões e de grupos a distância deve repensar sua atuação no contexto que se impõe.

Para facilitar grupos virtuais neste momento, levantamos alguns pontos de atenção:

  1. Observar e refletir sobre a prática da facilitação. Voltar casas nesse processo e se reconectar com o ponto de partida: o que é facilitar e para que facilitar.
  2. Começar a facilitação do processo de mudança, adaptando e criando novos jeitos de atuar, principalmente em uma camada estrutural. As mesmas estruturas não servirão para alcançarmos os mesmos ou novos resultados.
  3. Pensar e criar novas chaves de leituras grupais, já que o campo grupal se configurará de outras maneiras e as dinâmicas que sugiram deles também. A observação precisará de novas lentes.
  4. Aprender a lidar com as limitações: desde a infraestrutura das plataformas até a dificuldade de as pessoas interagirem de forma digital, pois elas também precisarão aprender.

A experiência da facilitação de grupos nos ajudará muito, pois vamos ter que aprender a interagir novamente, aprender a facilitar novos tipos de interações e perceber novos movimentos grupais, novos tempos grupais e novas plataformas de interações. Tudo que vivenciamos e aprendemos como facilitadores até aqui é válido, mas não devemos nos apegar ao modos que estávamos habituados a atuar, pois estamos diante de algo novo, desconhecido, e as dinâmicas grupais estão em transição nesse momento.

por Paulo Henrique Corniani

É sociólogo, pós-graduado em dinâmica dos grupos e coach ontológico. Sócio do Appana Território de Aprendizagem. Um homem latino americano buscando entender as coisas.

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