Escolha uma Página

Os Órfãos do Coaching

Há um fenômeno que conduziu milhares de pessoas às salas de aula de Coaching nesta última década. Muitos foram os fatores que contribuíram para esse fenômeno, desde a crise econômica, passando por uma crise coletiva de sentido no trabalho, pela ascensão das redes digitais e pelo oportunismo de quem se aproveitou desse nicho de mercado. Mas não queremos falar dos fatores do fenômeno do Coaching no Brasil, mas de um de seus efeitos: o desamparo de coaches profissionais após a formação.

Um desamparo gerado pela estrutura e pela didática de algumas formações disponíveis no “mercado” de Coaching. Algumas instituições de Coaching se tornaram negócios milionários e passaram a oferecer seus cursos como produtos para suprir “dores” e criar demandas para seu público(-alvo). Quando um curso se torna um pacote, o compromisso da instituição se volta mais para a sustentabilidade da cadeia do negócio em si, para vender mais pacotes, manter a estrutura da empresa e gerar mais lucro, do que para a sustentabilidade do conhecimento e do aprendizado no aprendiz, que passa a ser tratado como “alvo” do marketing e registro no cadastro de clientes.

Em instituições que entendem a educação de adultos meramente como um negócio lucrativo, o curso-pacote acaba sendo simplificado, apostilado, condensado, reduzido no tempo. A “pasteurização” dos cursos de Coaching, inclusive, foi um dos grandes fatores que geraram a polêmica em torno desse método e ocupação profissional. O método apostilado, reproduzido do modelo de enciclopédico, compila conceitos complexos de forma simplificada e, muitas vezes, os reduz a citações fora do contexto de seus originais. O foco está em oferecer informação e dados, o que gera percepção de valor do público-alvo, e o conteúdo é centrado na figura do trainer (o professor). Nesse sentido, o modelo dessas formações apresenta uma didática equivocada, pouco andragógica e de aplicação restrita pois a aprendizagem – que deveria ser o foco desse processo – fica esquecida.

Pasteurizado, enciclopédico e tradicional, por dois motivos principais. Um deles é o próprio trainer, que é orientado a se posicionar como modelo exemplar a ser seguido, detentor experiente do conhecimento que pode até compartilhar suas falhas do passado como cases, mas que parece não cometê-las mais – um trainer tornado mestre imaculado. Além disso, assume o papel de motivador, estimulando e atraindo a atenção dos alunos para o valor das informações e para a certeza de seu ponto de vista, e também de censor, que orienta o que é certo e errado, de acordo com as regras ditadas pela apostila ou pelas ferramentas “cientificamente comprovadas” que, por isso, não podem ser questionadas. A apostila, inclusive, também caracteriza esse modelo de ensino. Muitas vezes, ela é a única referência a que o aluno em formação tem acesso ou recorre para guiar seus estudos e, posteriormente, sua prática profissional, limitando seu aprofundamento e pensamento crítico. Menos tradicional, no entanto, é o tempo destinado a esse modelo de ensino. Visando assumir um caráter mais inovador, essas formações utilizam o argumento das metodologias ágeis e condensam o tempo de curso em poucas horas presenciais e muitas horas on-line (só aqui convocando a autonomia e a autorresponsabilidade do adulto).

Dessa forma, o modelo de ensino oferecido vai gerando, paulatinamente, a sensação de falta no aluno. Sensação que culmina no desamparo do aluno-órfão logo depois de “formado” em Coaching. Sente-se órfão do trainer que detinha todas as respostas e desamparado com uma apostila que não dá conta da complexidade do que acontece nos atendimentos reais, gerando uma sensação de incompletude que é interpretada como falta de mais conhecimento, que será oferecido somente no próximo curso.

Os órfãos do Coaching saem da formação motivados, num primeiro momento, e logo em seguida se sentem perdidos, sem repertório sólido nem teórico, nem prático sobre o Coaching. Por terem contato apenas com um referencial e terem sido ensinados a aceitá-lo, obedecê-lo e reproduzi-lo, não sabem como conduzir processos que escapam do padrão das ferramentas aprendidas.

Os órfãos do coaching são deixados na roda do mercado de trabalho munidos de uma enorme e pesada caixa de ferramentas e uma lista de perguntas a decorar. Sem terem desenvolvido uma expressão autoral, se apropriado do método com pensamento crítico e autonomia e sem referências (teóricas e práticas) que só o tempo, estudo e dedicação podem trazer, a incipiente carreira de coach torna-se insustentável em pouco tempo e muitos voltam às suas carreiras anteriores ou se movem para outro fazer laboral que parece ser mais atrativo e lucrativo.

Se o Coaching é um método de estruturação de conversas expansoras por meio de perguntas refletidas, o processo formativo deve dar conta de muito mais do que informação e dados. Deve, principalmente, formar mentes indagadoras, estimular a autonomia, autenticidade, criatividade. Uma formação efetiva de Coaching coloca a inteligência e os afetos dos adultos em formação no centro do processo de aprendizagem e, para isso, precisa estar aberta a questionamentos, ao não-saber e a revisão constante. Afinal, o Coaching não é uma ciência dura que está posta, é um método em devir, em construção contínua.

 

Káritas Ribas
Pesquisadora em Complexidade, Mestre em Biologia-Cultural, Filósofa, Psicanalista e Coach com Formação Ontológica – PCC pelo ICF. Sócia-fundadora do Appana Território de Aprendizagem.

Paulo Henrique Corniani
É sociólogo, pós-graduado em dinâmica dos grupos e coach ontológico. Sócio do Appana Território de Aprendizagem. Um homem latino americano buscando entender as coisas.

Carolina Messias
Pesquisadora de processos de escrita e Comunicação Autoral, mestre em Literatura e coach com formação comportamental e ontológica.